Pode ser que o título leve o leitor a uma reflexão e a conclusão de que coisas como essa são óbvias. Acredite em mim, elas não são. Enquanto inúmeros jogadores atribuem suas derrotas a falhas como "errei meu combo / punish" ou "defendi o setup do lado errado", "não conheço matchup", uma falha crucial fica bastante aparente, mas ainda assim despercebida para outros.
Alguns vários requisitos para a evolução constante dependem de fatores extremamente simples e que por algum motivo não estão sendo considerados por jogadores de longa data, mas pouco progresso. Existe aquele ponto que o jogador procura simplesmente o que está errado no sistema para tentar reparar, enquanto segue seu método de tentativa e erro por mais sete mil partidas... e ainda assim sem sucesso aparente ou significante. Em resumo, isso acontece porque eles acreditam que simplesmente jogar mais irá torná-los melhores (o que não deixa de ser verdade, você mantém fixado o seu conhecimento de como jogar - corretamente ou não - e isso se torna um hábito extremamente difícil de perder).
A internet ou seus amigos podem te ensinar estratégias, podem te ensinar combos, setups, aquela parte manjada que todo mundo consegue aprender com um mínimo de interesse. É comum ver jogadores que tem essa parte bem decorada mas que jamais conseguem por em prática, e que após derrotados, acabam na situação descrita no primeiro parágrafo. Este post fala sobre um fator fundamental que não pode ser alcançado por aqueles que querem vencer pelo momento, por aquele um game. O que falta a eles é ambição.
Sim, ambição. Obsessão por um objetivo. Sentir o peso do fracasso e parar de fingir que "é apenas um jogo" enquanto puxa o cabo de rede durante a partida online ou tenta simplesmente aliviar o impacto da sua derrota. Sinta essa sua derrota e todo o seu amargor, pois não é a derrota que o torna mais forte, mas sim o que você aprende após se recuperar dela.
Eis então que entra a importância da rivalidade. Não existe nada melhor do que um rival para um jogador determinado (sequer digo competitivo ou sério. Determinação é o suficiente). Eu, por muito tempo, me considerei um jogador casual... mas sempre fui um jogador motivado pelos oponentes que quis vencer. Não só o gosto pelo jogo, mas a vontade de superar meus adversários.
À minha evolução como jogador, eu atribuo principalmente algumas experiências pessoais de derrotas que jamais aceitei e oponentes que sempre quis impressionar, tais como:
- Um set de 100 partidas contra um jogador de Chun-Li na primeira versão do Street Fighter IV, PC
- Um jogador de Viper que me deixou sem resposta por um longo tempo, e que acompanhou (em matéria de nível) a evolução que tive no jogo por anos
- Um jogador de Ryu, meu único colega de treino offline e que por essa razão conhecia meu jogo muito bem. Para mim, vencer ele significa ser capaz de mudar a si mesmo em um intervalo muito curto de tempo (ou simplesmente também conhecer os hábitos dele e saber como explorá-los)
- Minha primeira eliminação em um campeonato. Saber que perdi por falha de execução não mudou o fato de eu mal ter conseguido dormir à noite. Foi logo após eu ter classificado para a etapa nacional da ESWC 2010, então também foi um grande balde de água fria por esse lado. Graças a essa derrota, fiz uma promessa (talvez ambiciosa demais) a mim mesmo: "Vou chegar em um nível que o Rio Grande do Sul jamais conseguirá alcançar"
- Jogadores capazes de me vencer sets ou que apresentavam situações onde eu não conseguia me situar. Como exemplo, houve um jogador de Hakan na época do AE que me venceu 10-3. A primeira coisa que fiz foi aprender o máximo possível contra Hakan e consegui vencer 10-3 no set seguinte graças a esses ajustes
Para mim (exceto em alguns momentos de fraqueza), nunca houveram razões para não fazer o que eu gosto usando todo o meu potencial, pois tive motivação de várias pessoas que sequer sabem disso (algumas sabem). Na minha opinião, o que falta aos jogadores atuais é justamente aquele frio na barriga do corpo dizendo "Eu não quero perder pra esse cara. Eu não vou perder pra esse cara" e principalmente, que jogadores com mais tempo de jogo de Street Fighter 4 do que eu parem de dizer que não se importam e usem seu tempo de jogo de uma forma que traga satisfação. Se você está estagnado e mesmo assim usa seu tempo no jogo, lhe falta motivação - provavelmente a motivação que um desafio te dá. Pessoalmente falando, este é mais um dos problemas que impede o avanço no nível de habilidade. Meramente vontade de evoluir e motivação para evoluir.
Concordo plenamente, acho que muito da grandiosidade (em qualquer coisa que a gente vá fazer) mora nessas coisas simples que deixamos passar batido quando nos consideramos muito conhecedores de algo e nos debruçamos demais no que é técnico; perde a "alma" e o sentido. E aliás, há beleza nesse post também, acho rivalidade uma forma de relação humana bonita pra cacete, principalmente aquela rivalidade que é muito amistosa (tipo Ryu e Ken mesmo) e que num momento aquela pessoa é teu algoz e você só quer destruir ela, e no outro, ela é como um irmão ou irmã pra levar pra vida mesmo.
ResponderExcluirPra mim rivalidade sempre foi o motor pra jogar fighting games, eu comecei jogando fighting games com um primo meu e ganhar dele sempre foi o que me fez jogar mais e melhorar, e até hoje eu faço paralelos com essa experiência de infância nos fighting games quando preciso de motivação pra ganhar.
Legal ler esses posts e lembrar que tem um humano por trás do Keoma jogador também haeuhaeuhu; to acostumado a te ver como um jogador muito frio e técnico, mas acho que todo mundo que se dedica mesmo à esse hobbie tem que ter um tanto daquela paixão e obsessão "irracionais" pela coisa que trás esses sentimentos e essa vontade de ganhar; se bem que suas reações físicas imitando o sky fall do Abel na FT contra o Sakonoko já denunciavam sua humanidade também aheuaheuheuh.
Se me permite uma pergunta: sabe elencar algumas partidas que foram as mais emocionantes pra ti, Keoma? E hoje, têm alguém que considera seu rival?
Abraços! Sou fan do teu trabalho como jogador e dos posts aqui, seu blog é muito bom, espero um dia ter essa mesma paciência que você tem pra falar sobre a minha experiência com fighting games também.
Durante os últimos 4 anos tive uma experiência similar, e o legal é que a rivalidade levou à melhora do desempenho dos dois jogadores.
ResponderExcluirComo muitos newbies de Street Fighter, jogava de shotos, pulando pra caramba, fazendo scrub e quase não defendendo. Meu rival era um cara com uma noção básica de como funciona o jogo, fazia punish das farofadas e pulos que eu fazia. Posso dizer que houveram dias em que jogamos 40 partidas e eu perdi todas as vezes.
Passaram-se meses, até certo dia comecei a experimentar o Dhalsim, personagem que sempre gostei mas não tinha a paciência necessária pra jogar. Assim que consegui uma noção básica do jogo - e de como fazer um zoning decente, passei a ser o carrasco do meu rival, na época um jogador de Ryu.
Foram alguns meses de sofrimento para ele, mas posso dizer que hoje ele é outro jogador, muito melhor do que eu. As derrotas foram combustível pra buscar conhecimento de footsies, frame traps e qualquer outra técnica que pudesse usar para melhorar.
No fim das contas deixei de ser um scrubber/farofeiro medíocre e meu rival cresceu ainda mais.
Aqui quem fala é o Elyson, rival do sr Nihey.
ResponderExcluirFico lisonjeado e feliz por conta de como foi a experiência para meu rival. Não sei dizer se sou um jogador melhor atualmente, mas meu esforço para evoluir provavelmente foi maior, e as derrotas que eu sofria, jogando de Ryu, contra um Dhalsim que zoneava de forma consistente (pelo menos para meu nível de jogo) me fizeram sentir frustração enquanto me trouxeram motivação para aprender. Cheguei a pensar que era impossível derrotar o Dhalsim jogando de Ryu.
A evolução foi lenta, pois era ler sites e assistir videos, treinar e tentar aplicar contra Nihey. Não havia alguém mais experiente para guiar meu aprendizado. Mesmo assim, fui evoluindo aos poucos, e demorei para conseguir oferecer um jogo parelho.
As vitórias foram aos poucos aparecendo, e me traziam grande satisfação. Tal satisfação aparecia também quando eu enfrentava outros players, mas contra Nihey era sempre uma prova do quanto eu poderia me adaptar, pois chegou em um nível que ele praticamente lia minha mente.
Sou grato e feliz pela experiência. Tive a oportunidade de conhecer o mundo do SF4, despertar minha competitividade (e sentir frustração nas derrotas, bem como muito prazer ao superar o rival ou outros players que exigiam evolução minha), graças ao Nihey, que emprestava seu vídeo game e jogava FT comigo quase que diariamente.