terça-feira, 28 de outubro de 2014

Barreiras - Capítulo 1: Conheça Seu Pior Inimigo

Como o próprio nome leva a entender, "Barreiras" é uma série de posts focados em entender, apontar e corrigir possíveis erros ou defeitos em um jogador, independente do seu nível. Para o primeiro "episódio", trago um fator que pode não ser muito visível mesmo quando o jogador está sob efeito do mesmo por algum tempo.

Em algum momento, independente do nível de jogo, o jogador se sente capaz de avaliar a habilidade de seu oponente, e usa esta avaliação como base para saber até onde seu oponente deve ser levado a sério. Em campeonatos, esta é uma habilidade fundamental tanto para não revelar muito da sua estratégia quanto para reduzir o esforço que você tem para jogar uma partida, especialmente contra um oponente mais fraco e que pode ser vencido sem muitas mudanças no seu plano de jogo padrão, ou automático.

Outra maneira comum de avaliar o oponente é baseado em retrospecto, algo que também acredito que seja hábito comum de jogadores em geral. Retrospecto, na minha opinião, é a maneira mais perigosa de tentar medir o nível de ameaça que um jogador representa, apesar de ser algo (de certa forma) natural de acontecer. Você não vai levar muito em consideração um oponente contra o qual você tem um percentual de vitórias bastante alto - ele deixa de parecer perigoso porque talvez o resultado tenha estabilizado por um tempo, ou seja, você vence ele o tempo todo - e isso é algo que pode custar mais caro do que se possa imaginar.

Dependendo do quão sério você é com seu jogo ou com seu desempenho, tais percentuais de vitória se tornam uma média, um padrão a ser conservado, e (acredite em mim, acontece o tempo todo, até comigo) qualquer coisa abaixo desse padrão se torna praticamente inaceitável. Eis o ponto crucial.

Assim que as coisas começam a sair do seu controle dessa forma, seu orgulho vai entrar no caminho e tirar sua visão de como estabelecer a postura que realmente ganha a tal partida. Você não está mais preocupado em pensar no que fazer quanto ao game que está jogando ou quanto ao set em geral, tudo o que você realmente quer agora é "não deixar o cara ganhar mais que três games", e quanto mais perto ele chegar, mais isso irá mexer com seu ego. Por consequência, maior a sua tendência a cometer erros que passarão despercebidos a seus olhos, e assim cresce a bola de neve.

A partir do momento que você joga tendo em mente que deveria estar ganhando, você se aproxima cada vez mais de uma derrota e de um resultado muito abaixo da sua média. Talvez você até perca o set que está jogando, mesmo que seu oponente nunca tenha ganhado um set de você. Provavelmente não pelo mérito do oponente, mas pela barreira mental que seu orgulho criou em você mesmo.

Coisas como essa ajudam a explicar por que um jogador X perde para um jogador Y em um momento de campeonato, quando geralmente X ganha 9 a cada 10 games contra Y. É uma maneira da qual o jogador quebra sua postura, sua resistência mental, sua capacidade de adaptação e raciocínio, e em breve até mesmo sua execução é afetada. Nada mede mais os nervos de um jogador do que uma tática repetitiva ou erros constantes de execução. A partir do momento que você pensa "Como assim? O que está acontecendo? Esse cara nunca me ganha, não tem como eu perder para ele!", você já está perdendo.

(Acabei de falar a mesma coisa três vezes. Decidi não editar porque pode valer a pena lol)

Então, como você consegue parar a bola de neve?

Talvez você não consiga. Provavelmente ela pare por conta própria, quando já for tarde demais para você. O que você realmente deve fazer é não formar a bola. Não jogar baseado em retrospecto e se focar em como o oponente está jogando no momento, sem pressa de vencer (Caso seu oponente tenha uma boa defensiva, sua pressa trará como resultado apenas sua frustração, o que acaba gerando ainda mais impaciência da sua parte). Como Alex Valle já disse, "seu oponente é tão bom quanto você deixa ele ser". Se você considera seu oponente inferior e ele ainda assim lhe vence, onde será que está o problema? Ele teve sorte? Eu acho que não. Você é o único culpado por jogar com seu histórico e com seu ego, não com sua habilidade. Você perdeu para si mesmo, antes que você possa criar qualquer desculpa que alivie a dor do seu ego ferido. Você tomou Wakeup Ultra? A culpa é sua, não do oponente que arriscou algo (consciente ou não) que você considera estúpido. A culpa é sua, por não ter considerado que ele poderia ter feito aquilo. Então da próxima vez que enfrentar um oponente que você acredita não dar muito trabalho, certifique-se de que ele não dê antes que seus nervos lhe impeçam de tomar qualquer atitude quanto a um problema que deveria ser simples. Jogue como se qualquer pessoa tivesse grandes chances de vencê-lo, e você não irá tremer assim que o primeiro esboço de reação do seu oponente surgir.

9 comentários:

  1. Bom post.

    Não costumo levar em consideração retrospecto e tal. Sim, eu sou um jogador de nivel mediano pra baixo, então como meu "win rate" é baixo, talvez isso ainda me salvaguarde contra aquilo. Porém o lance de começar a "perder a estribeiras" por conta de erro de input, aí sim eu me encaixo perfeitamente :(

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    1. Será que é erro de input? Muitas vezes cometemos erros de execução e botamos culpa no input, lag ou controle. Muitas vezes em comandos simples como um shoryuken. Eu mesmo ja cheguei a quebrar 2 controles botando culpa neles, e só vim perceber que o erro era meu após adquirir um controle com peças sanwa, ai vi que o erro era meu e não do controle.

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  2. Keoma, acho que jogar como se o oponente tivesse sempre grandes chances de vencer não é muito bom porque pode te impedir de arriscar um pouco e você acaba respeitando o adversário além do necessário, abs

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  3. Acho que jogando com mais cautela no início fica mais fácil (ou melhor, mais seguro) saber quanto de respeito teu oponente merece. Claro, tudo tem uma medida, mas o que geralmente acontece é ver um jogador subestimando o outro até que seja tarde para se recuperar. Como você disse, arriscar. Colocar algo a perder. Na minha opinião, o objetivo principal é minimizar os riscos e não deixar aberturas. A necessidade de arriscar vem da falta de aberturas no jogo do oponente.

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  4. Sempre que vou jogar considero o meu oponente superior a mim. Dessa forma trabalho o meu psicológico, pois alivia a pressão pela vitória. Se eu ganhar, mérito meu. Se eu perder, já era esperado, pois o oponente é superior. Gostaria de destacar essa parte: "Se você considera seu oponente inferior e ele ainda assim lhe vence, onde será que está o problema? Ele teve sorte? Eu acho que não. Você é o único culpado por jogar com seu histórico e com seu ego, não com sua habilidade. Você perdeu para si mesmo, antes que você possa criar qualquer desculpa que alivie a dor do seu ego ferido. Você tomou Wakeup Ultra? A culpa é sua, não do oponente que arriscou algo (consciente ou não) que você considera estúpido. A culpa é sua, por não ter considerado que ele poderia ter feito aquilo. " Abs.

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  5. Belo texto Keoma. Essa questão do retrospecto eu noto e muito. Vejo jogadores "bons" que ficam revoltados quando perdem pra famosa "vítima" e tal... aí entra o ego, que não só atrapalha no jogo, mas também na vida em geral. Seus posts são sempre sensatos e todos os jogadores deveriam ler.

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  6. Então keoma é justamente por isso que tenho passado,eu acabo impondo quantos loses eu deveria ter versus tal oponente ai eu acabo perdendo o controle e perdendo mais ainda.
    É dificil encarar a luta como se todo adversário fosse melhor que ou ter fortes chances de me ganhar,alguns eu simplesmente não consigo aceitar o orgulho acaba sendo maior contra alguns oponentes...
    Ex: Randons no ranked.

    No começo era mais fácil pois estudava menos o jogo e não sabia tanta coisa então eu não me culpava tanto, eu simplesmente falava paciência que uma hora eu acerto basta eu me esforçar.Tanto que na 2012 eu evolui meu jogo consideravelmente sempre tendo em mente que eu não ia justamente pra ganhar sim pra fazer um bom jogo.

    Mas depois que eu fiquei um tempo sem jogar, eu passo por situações que eu passava no começo e falo não acredito que tomei isso ou aquilo ou julgo erroneamente o jogo do adversário por falhas minhas.

    Assim que as coisas começam a sair do seu controle dessa forma, seu orgulho vai entrar no caminho e tirar sua visão de como estabelecer a postura que realmente ganha a tal partida. Você não está mais preocupado em pensar no que fazer quanto ao game que está jogando ou quanto ao set em geral, tudo o que você realmente quer agora é "não deixar o cara ganhar mais que três games", e quanto mais perto ele chegar, mais isso irá mexer com seu ego. Por consequência, maior a sua tendência a cometer erros que passarão despercebidos a seus olhos, e assim cresce a bola de neve.

    A partir do momento que você joga tendo em mente que deveria estar ganhando, você se aproxima cada vez mais de uma derrota e de um resultado muito abaixo da sua média. Talvez você até perca o set que está jogando, mesmo que seu oponente nunca tenha ganhado um set de você. Provavelmente não pelo mérito do oponente, mas pela barreira mental que seu orgulho criou em você mesmo.

    Esse trecho acima traduz todo meu sofrimento atualmente.
    Mas é isso não tenho muito o que fazer a não ser ter paciência e começar a aceitar os meus erros e ter a consciência que a consistência do meu jogo vai voltar com o tempo de treino e que é normal essas oscilações, me culpar menos e trabalhar mais como sempre fazia.

    Ótimo post , espero poder treinar contra você em breve.

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  7. Quando li o post, só lembrei da luta Daigo vs John Choi Evo 2014, onde foi travado uma grande disputa de pokes do inicio ao fim, acho que ali o ego do Daigo subiu a mil querendo vencer no poke da sua eterna vitima até então. https://www.youtube.com/watch?v=WA9y69Zyi0E

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